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Fonte: https://www.terra.com.br/comunidade/visao-do-corre/como-maua-se-tornou-a-cidade-com-o-maior-bicicletario-de-sp,1d28095d28e4c7f1d149ae7f1fc2977eu42xp5dk.html

Data: 2 de Junho de 2023

Localizado na estação de trem da linha 10-Turquesa, espaço tem 1.968 vagas, funciona 24h por dia e é administrado por associação de ciclista

Maior bicicletário de São Paulo, espaço administrado pela Ascobike tem quase 2 mil vagas

Foto: Jessica Bernardo/Agência Mural

Aos 18 anos, Adilson Alcântara já era um apaixonado pelas bicicletas. Todos os dias ele pedalava de sua casa no Jardim dos Ipês, zona leste de São Paulo, até a estação Itaim Paulista, da antiga Linha F da Fepasa (Ferrovia Paulista S/A), onde trabalhava como bilheteiro.

No começo, a magrela ficava guardada atrás da bilheteria e o jovem percebeu que fazia falta um estacionamento onde ele e outros ciclistas pudessem deixar suas companheiras guardadas em segurança.

Determinado a resolver o problema, Adilson alugou um espaço nos fundos de uma loja em frente à estação. No pequeno corredor, montou seu primeiro bicicletário, com 50 vagas. Anos mais tarde, ele montaria outro estacionamento, dessa vez com capacidade para quase 2 mil bicicletas.

O novo empreendimento, agora na Estação Mauá, da linha 10-Turquesa da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), virou modelo para construções do mesmo tipo no país e foi chamado pelo ITDP, um instituto internacional de mobilidade, como o “maior da América Latina”.

“O bicicletário virou referência. Tive que aprender a palestrar, a contar para uma turma a história do bicicletário”, comenta Adilson, hoje com 63 anos.

Adilson Alcântara, 63, fundou a associação que administra o bicicletário em Mauá
Foto: Jessica Bernardo/Agência Mural

No início dos anos 2000, o ex-bilheteiro tinha se tornado chefe da estação Mauá e precisava lidar com uma situação recorrente: as bicicletas amarradas nas grades do local.

“O pessoal vinha e colocava nesse corredor aqui”, lembra ele, apontando para a saída das plataformas. “O chefe da estação tinha que tomar providência”, explica.

A providência, no caso, era chamar a prefeitura, que levava as bicicletas para um pátio. A solução, no entanto, desagradava Adilson, que conhecia a realidade dos ciclistas e sabia que eles não tinham como pagar a multa para recuperar os veículos.

Foi quando ele percebeu que a população precisava de um bicicletário. Desta vez, diferente do que fez no Itaim Paulista, ele conversou com funcionários da companhia de trens para viabilizar a ideia no terreno da estação.

Para isso, o ferroviário contou com a ajuda dos próprios ciclistas. “Fizemos um abaixo-assinado pedindo para a CPTM ceder um espaço”, diz.

Depois de uma longa negociação, a companhia de trens aceitou ofertar parte do terreno para a criação do bicicletário, mas alegou que não administraria o local. Adilson criou então a Ascobike (Associação de Condutores de Bicicleta de Mauá).

Em maio de 2002, a entidade formada por ciclistas da região assinou o acordo com a CPTM e ganhou o direito de montar o bicicletário.

 
Espaço já recebeu até 1.700 bicicletas, mas hoje tem 600 associados ativos
Foto: Jessica Bernardo/Agência Mural

Com doações, a Ascobike conseguiu montar os ganchos para as bicicletas e abrir o estacionamento com 200 vagas, e ao custo de R$ 1 a diária ou R$ 10 a mensalidade para quem quisesse guardar a bike. O dinheiro seria usado para as manutenções do próprio espaço, já que a instituição não tem fins lucrativos.

Com funcionamento 24 horas por dia, em pouco tempo o número de vagas da unidade se mostrou insuficiente e precisou ser ampliado. “No primeiro dia, guardamos uma bicicleta. Depois vieram 11, 40, 100… Estourou”, conta ele.

Em 2008, o espaço passou por uma reforma e ganhou uma cobertura e ampliação. A quantidade de vagas subiu para 1.968 e algumas vantagens passaram a ser oferecidas para os associados. A entidade passou a ter serviços de oficina, além de ter assistência jurídica e social, e empréstimo de bicicletas.

“Nós chegamos a ter 1.700 bicicletas aqui”, afirma Adilson. O projeto ganhou tanta visibilidade que atraiu a atenção do governo. O bicicletário da Ascobike virou referência para a instalação de espaços semelhantes em outras estações, mas agora administrados pela própria CPTM.

Empréstimo de bicicletas e oficina

Quando o bicicletário de Mauá foi criado, nenhuma linha de trem contava com o serviço. Hoje 35 estações têm bicicletários ativos. Ainda assim, o estacionamento da Ascobike continua sendo o maior espaço para guardar bicicletas de São Paulo. O segundo maior fica em Suzano, na linha 12-Safira, com 576 vagas. 

Com a chegada da pandemia de Covid-19, a associação precisou cortar alguns serviços, como o empréstimo de bicicletas e a oficina. “Estamos retomando todo o trabalho que era oferecido lá atrás”, explica Adilson.

O número de associados também diminuiu nos últimos anos, e agora cerca de 600 ciclistas são membros da entidade e pagam a mensalidade de R$ 30 — não-associados pagam R$ 3 pela diária.

Para Adilson, a estrutura cicloviária da cidade precisa melhorar para que mais moradores utilizem o bicicletário. “Sempre achei que tem demanda para muito mais [bicicletários]. O que não tem é estrutura viária”, diz.

Até 2017, Mauá tinha uma única ciclovia, com aproximadamente 2,5 km, na avenida Papa João XXIII, e uma ciclofaixa de 1,3 km na avenida Washington Luiz. 

Naquele ano, a cidade tornou lei o Plano Municipal de Mobilidade de Mauá, que previa a criação de 30 km de vias, que seriam implantadas nos principais eixos de circulação e conectariam a área central a outros pontos e equipamentos urbanos da cidade.